Janeiro Branco: o que os dados revelam sobre a saúde mental no Brasil

O começo do ano costuma marcar a abertura de um novo ciclo. É nesse momento que muitas pessoas traçam metas, iniciam novos hábitos e fazem planos para os meses seguintes. Mas nem todo mundo vive esse período da mesma forma. Por envolver uma intensa movimentação social e emocional, no início do ano também pode acender alertas importantes para a saúde mental. É nesse contexto que surge o Janeiro Branco, idealizado como um mês de conscientização sobre o bem-estar mental. Inspirada por movimentos como o Outubro Rosa e o Novembro Azul, a iniciativa foi criada em 2014 pelo psicólogo mineiro Leonardo Abrahão. O objetivo é sensibilizar a população para a importância do cuidado com a saúde mental e estimular a busca por apoio profissional sempre que necessário.

O cenário da saúde mental no Brasil

Esse olhar ganha ainda mais relevância no Brasil, país que apresenta a maior prevalência de depressão na América Latina, segundo o relatório Depressão e outros transtornos mentais, da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Dados do inquérito Covitel 2023, disponíveis no Observatório da Saúde Pública da Umane, mostram que 12,7% da população brasileira convive com a depressão, enquanto 26,8% relataram sofrer de ansiedade. Esses transtornos afetam de forma desigual homens e mulheres. Entre elas, 18,1% receberam diagnóstico de depressão e 34,2% de ansiedade, o que evidencia uma disparidade significativa entre os gêneros (para os homens os valores são respectivamente: 6,9% e 18,9%).

Internações por depressão: o que mostram os dados do Brasil e por estado

No Observatório da Saúde Pública, também é possível acompanhar indicadores relacionados às internações por depressão, que ajudam a dimensionar os casos que exigem cuidado hospitalar. Em 2024, foram registradas 30.449 internações no país, o que corresponde a uma taxa de 14,3 internações por 100 mil habitantes.

Os dados por faixa etária e sexo mostram que as mulheres concentram a maior parte das internações na maioria dos grupos etários, com destaque para a população adulta.

Além do volume de internações, no menu de dados por estado, o Observatório também permite analisar o número médio de dias de permanência hospitalar, um indicador que ajuda a compreender a duração do cuidado nesses casos.

Suicídio nas Américas: uma tendência que exige atenção contínua

Outro dado preocupante, que merece atenção ao longo de todo o ano (não somente no Janeiro Branco), é o aumento de 17% da taxa de suicídio nas Américas entre 2000 e 2019. No mesmo período, houve uma redução de 36% na taxa global, segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).

No Brasil, dados disponíveis no Observatório da Saúde Pública indicam que, em 2023, foram registradas 17.002 mortes por suicídio, o que corresponde a uma taxa de 8 óbitos a cada 100 mil habitantes. A população masculina concentra a maior parte desses casos, com 13.244 mortes, o equivalente a 77,9% do total. Jovens adultos até o início da meia-idade representam o maior número. O gráfico abaixo apresenta a distribuição dos óbitos por faixa etária e sexo.

Fatores associados ao risco de suicídio

Diversos fatores subjacentes ajudam a explicar esse cenário. Entre os homens, o suicídio está fortemente associado ao consumo de álcool e outras drogas, ao desemprego e à residência em áreas com altas taxas de homicídio. Entre as mulheres, a desigualdade educacional e o desemprego aparecem como fatores relevantes.

A resposta da Opas para a prevenção do suicídio

Diante desse cenário preocupante nas Américas, a Opas lançou, em setembro de 2025, uma iniciativa com o objetivo de reverter essa tendência.A ação se concentra em três frentes prioritárias:

Fortalecer os planos nacionais, apoiando os países na elaboração ou atualização de estratégias e planos de prevenção do suicídio adaptados às populações em maior risco.

Ampliar o acesso a uma atenção em saúde mental de qualidade, por meio da capacitação de profissionais de saúde e comunidades para identificar e apoiar pessoas em situação de risco, além de oferecer suporte às famílias afetadas por suicídio ou autolesões.

Sensibilizar e reduzir o estigma, em parceria com profissionais da mídia, promovendo uma cobertura responsável e campanhas que contribuam para quebrar tabus relacionados à saúde mental.

Cuidado além do Janeiro Branco: onde buscar ajuda em saúde mental no Brasil

O cuidado lembrando no Janeiro Branco deve permanecer durante o ano todo. No Brasil, qualquer pessoa pode buscar apoio nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), que integram a rede de atenção em saúde mental do Sistema Único de Saúde (SUS). São mais de 3 mil unidades espalhadas pelo país, voltadas ao acolhimento, à escuta qualificada e ao acompanhamento de pessoas em sofrimento psíquico.

O acesso aos Caps é um direito de todos, independentemente de haver ou não um diagnóstico psiquiátrico formal. Esses serviços oferecem orientação, cuidado contínuo e encaminhamentos adequados de acordo com cada necessidade.

Em situações de crise emocional ou quando o sofrimento se torna intenso, a população também pode contar com o apoio do Centro de Valorização da Vida (CVV), que realiza atendimento gratuito, sigiloso e 24 horas por dia. O serviço está disponível pelo telefone 188, além de chat e outros canais digitais, oferecendo escuta e acolhimento a quem precisa conversar.

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