Hábitos saudáveis no Brasil: dados sobre tabagismo, atividade física, alimentação e álcool

Durante muito tempo, o debate sobre hábitos saudáveis esteve associado principalmente à prevenção de doenças cardiovasculares e diabetes. Nesse contexto, fatores de risco como tabagismo, sedentarismo, alimentação inadequada, baixos níveis de atividade física e consumo excessivo de álcool ganharam destaque nas políticas de saúde pública. Nos últimos anos, porém, pesquisas têm mostrado que esses mesmos comportamentos também estão relacionados a outras condições de grande impacto na saúde pública, como alguns tipos de câncer e até formas de demência.

Estimativas indicam que ao menos 1,76 milhão de brasileiros com mais de 60 anos vivem hoje com algum tipo de demência, número que pode chegar a cerca de 5,5 milhões até 2050. 

Ao mesmo tempo, o país também observa aumento na incidência do câncer colorretal. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), são estimados 45.630 novos casos por ano no Brasil, sendo 23.660 entre mulheres e 21.970 entre homens. Nesse cenário, compreender como os hábitos de saúde evoluem na população se torna cada vez mais importante.Dados do Observatório de Saúde Pública, de Umane, com base nas informações do sistema de vigilância Vigitel, ajudam a acompanhar essa evolução. As informações mostram como fatores de risco modificáveis, como tabagismo, consumo de álcool, alimentação e prática de atividade física, têm mudado no país nos últimos anos, revelando avanços importantes, mas também desafios persistentes.

Queda do tabagismo mostra avanço consistente nas últimas décadas

Entre os fatores de risco analisados, o tabagismo apresenta uma das mudanças mais expressivas no Brasil nas últimas décadas. Dados do Vigitel mostram que a proporção de adultos fumantes caiu de 15,7% em 2006 para 9,3% em 2023, uma redução significativa em menos de vinte anos.

Esse movimento acompanha uma tendência mais ampla observada no país. Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde, o Brasil registrou redução de cerca de 35% no consumo de tabaco desde 2010, resultado que coloca o país como referência na diminuição do tabagismo. O avanço se deu principalmente pela adoção de políticas públicas de controle do tabaco, como restrições à publicidade, advertências sanitárias nas embalagens e a criação de ambientes livres de fumo.

Nos últimos anos, porém, esse cenário passou a apresentar sinais de mudança. Dados recentes do Ministério da Saúde indicam que, após quase duas décadas de queda, a proporção de fumantes voltou a crescer, com aumento de cerca de 25% entre 2023 e 2024. Especialistas apontam que a expansão de novos produtos de nicotina, como os dispositivos eletrônicos para fumar (vapes), pode estar entre os fatores associados a essa mudança, especialmente diante do aumento do uso entre jovens.

Atividade física avança, mas ainda não alcança toda a população

Ao contrário do tabagismo, cuja redução foi expressiva nas últimas décadas, outros fatores de risco modificáveis mostram mudanças mais graduais. Um deles é a prática de atividade física. Dados do Vigitel indicam que a proporção de adultos que relatam fazer exercícios físicos aumentou de forma moderada nos últimos anos, passando de 49,9% em 2016 para 54% em 2023.

O avanço aparece principalmente entre as mulheres. Nesse grupo, a prática de atividade física cresceu de 43% para 49,9% no período analisado. Entre os homens, os níveis já eram mais elevados e permaneceram relativamente estáveis, com 58,9%.

Apesar da melhora, os dados mostram que uma parcela significativa da população ainda não atinge níveis adequados de atividade física. Em 2023, segundo o Vigitel, cerca de 46% dos adultos residentes nas capitais brasileiras, mais de 16 milhões de pessoas, não praticavam nenhuma atividade física. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, adultos devem realizar pelo menos 150 minutos semanais de atividade física de intensidade moderada, ou 75 minutos de atividade vigorosa, ao longo da semana. 

Os indicadores relacionados à alimentação também seguem como um desafio importante. Dados do Vigitel indicam que, em 2023, apenas 21,3% da população adulta das capitais brasileiras, cerca de 7,4 milhões de pessoas, atingia a recomendação diária de consumo de frutas e hortaliças. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a recomendação é de pelo menos 400 gramas desses alimentos por dia, o equivalente a cinco porções diárias.

Consumo abusivo de álcool mostra aumentos recentes em algumas capitais

Em 2023, 16,9% dos adultos residentes nas capitais brasileiras relataram consumo abusivo de bebidas alcoólicas, segundo dados do Vigitel. O indicador considera a ingestão de quatro ou mais doses de bebida alcoólica para mulheres, ou cinco ou mais doses para homens, em uma única ocasião nos últimos 30 dias. O percentual se manteve relativamente estável nos últimos anos, mas segue mais elevado entre os homens, que apresentam taxas significativamente superiores às observadas entre as mulheres.

Além disso, uma parcela ainda maior da população relata consumir bebidas alcoólicas, mesmo que fora desse padrão considerado abusivo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reforça que não existe nível seguro para o consumo de álcool, o que significa que qualquer quantidade pode representar riscos à saúde. 

Ao observar a evolução recente nas capitais, porém, algumas cidades registraram aumentos mais expressivos entre 2021 e 2023. É o caso de Boa Vista, Curitiba, Maceió, Porto Alegre e Salvador. Em alguns casos, essas capitais também aparecem entre as que registram os maiores percentuais de consumo abusivo do país, como Salvador (24,3%), Maceió (18,4%) e Boa Vista (18,4%), o que reforça a persistência desse comportamento como desafio para a saúde pública.

Os dados mostram que mudanças nos hábitos de saúde da população tendem a acontecer de forma gradual. Enquanto a redução do tabagismo se consolidou como um avanço consistente, outros fatores de risco ligados ao estilo de vida, como alimentação inadequada, consumo abusivo de álcool e baixos níveis de atividade física, apresentam transformações mais lentas. Esse ritmo desigual sugere que promover mudanças nesses comportamentos exige estratégias contínuas, que envolvem informação, políticas públicas e ambientes que favoreçam escolhas mais saudáveis no cotidiano.

Leia mais no blog de Umane: Canetas emagrecedoras e obesidade no Brasil – desigualdades, limites do acesso e o papel do SUS