Tempo de tela, sedentarismo e saúde mental: o que os dados mostram sobre o estilo de vida
No Brasil, as pessoas passam aproximadamente 16 horas do dia acordadas. Um dado recente sobre estilo de vida, porém, chama a atenção: mais da metade desse tempo é dedicada às telas de computadores, celulares e tablets. Ou seja, são mais de oito horas por dia trabalhando, rolando o feed, lendo notícias, comprando, jogando. Um levantamento da plataforma Electronics Hub, que analisou 45 países, mostrou que o Brasil ocupa a segunda posição em tempo médio diário de uso de telas, atrás apenas da África do Sul.
Dados do Covitel, inquérito telefônico realizado pela Vital Strategies e UFPel, disponíveis no Observatório da Saúde Pública, reforçam esse cenário. No primeiro trimestre de 2023, 59,9% dos brasileiros entrevistados relataram permanecer três horas por dia ou mais em frente às telas em momentos de lazer, excluindo o uso relacionado ao trabalho.
Nas faixas etárias mais jovens, o percentual é ainda maior. Entre 18 e 24 anos, 76,1% relataram passar três horas por dia ou mais diante de telas também no tempo livre. Já entre 25 e 34 anos, o índice foi de 71,2%.

Tempo de tela e atividade física insuficiente
Se mais da metade do período em que estamos acordados é dedicada às telas, outras atividades passam a disputar espaço na rotina, entre elas a prática de atividade física. Nesse cenário, o aumento do tempo de exposição a dispositivos digitais se relaciona com outro indicador que preocupa especialistas: a atividade física insuficiente.
Em 2023, a pesquisa Vigitel, também disponível no Observatório de Saúde Pública, revelou que 46% dos adultos residentes nas capitais brasileiras, mais de 16 milhões de pessoas, não praticam nenhuma atividade física. De acordo com a OMS, a prática regular envolve ao menos 150 minutos semanais de atividade física de intensidade moderada, distribuídos ao longo da semana.A prática regular de atividade física não está associada apenas à prevenção de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes. Evidências científicas também apontam que o movimento exerce papel importante na saúde mental, contribuindo para a redução de sintomas de ansiedade e depressão.
Tempo de tela e piora da saúde mental em todas as idades
Paralelamente, o tempo de exposição a telas também tem sido analisado por pesquisadores como um dos fatores associados a piores indicadores de saúde mental, sobretudo quando o uso prolongado se combina à redução do sono, da atividade física e da interação presencial.
Uma revisão sistemática conduzida pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que analisou mais de 140 estudos e milhões de participantes de diferentes países, observou que o uso excessivo de telas esteve associado a piores indicadores de saúde mental, como sintomas de estresse, ansiedade e depressão, em diferentes faixas etárias.
Os dados populacionais também indicam a dimensão do problema. Dados do inquérito Covitel 2023, disponíveis no Observatório da Saúde Pública da Umane, mostram que 12,7% da população brasileira relataram diagnóstico de depressão, enquanto 26,8% relataram sofrer de ansiedade.
As duas condições também não impactam as faixas etárias da mesma forma. Em 2023, 31,6% dos jovens entre 18 e 24 anos relataram ter recebido diagnóstico de ansiedade, contra 20,1% entre pessoas com 65 anos ou mais. Também houve aumento na proporção de jovens que relataram diagnóstico de depressão entre o período pré-pandemia e o primeiro trimestre de 2023.

Um olhar ao estilo de vida dos mais jovens diante das telas
Esse debate ganha contornos ainda mais sensíveis na adolescência. Relatório recente da Organização Mundial da Saúde (OMS), com jovens de 11 a 15 anos em diversos países, identificou crescimento nos padrões de uso problemático de redes sociais, caracterizados por dificuldade de controle, prejuízo em atividades cotidianas e impacto no bem-estar. Em 2022, mais de 1 em cada 10 adolescentes apresentou esse padrão.
O documento também aponta associação entre o uso problemático de telas, a pior qualidade do sono e maior sofrimento psicológico, especialmente entre meninas. Embora os contextos nacionais variem, os achados reforçam a importância de observar como hábitos digitais se inserem na formação de comportamentos e na saúde mental desde as idades mais jovens.
Em um cotidiano cada vez mais mediado por dispositivos digitais, o desafio está em compreender como seu uso se articula com outros hábitos que impactam a saúde física e mental. Quando observados de forma integrada, tempo de tela, atividade física e indicadores de saúde mental, esses fenômenos ajudam a dimensionar desafios contemporâneos da saúde pública e a orientar estratégias de promoção da saúde mais efetivas.
