Gripe e doenças respiratórias: números mostram crianças e idosos como os mais afetados

Raquel Portugal / Fiocruz

As temperaturas mais frias, a baixa umidade do ar e a piora da poluição no inverno aumentam a incidência de doenças respiratórias no Brasil. As mais comuns incluem gripe, causada pelo vírus Influenza e H1N1, a COVID-19, asma e pneumonia, entre dezenas que o DataSUS classifica em 10 agrupamentos principais.

Segundo a OMS, a gripe sazonal registra 1 bilhão de casos por ano no mundo, e complicações respiratórias causam de 290 mil a 650 mil óbitos. Dessas vítimas fatais,  99% das crianças menores de 5 anos com infecções do trato respiratório inferior relacionadas à gripe vivem em países em desenvolvimento.

No Brasil, o Ministério da Saúde registrou 5,5 mil casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por influenza e 352 óbitos de janeiro a 18 de abril de 2026.

Mortalidade por doenças respiratórias se concentra massivamente nos idosos

Dados do DataSUS – SIM disponíveis no site do Observatório da Saúde Pública (OSP), da Umane, registraram 194.063 óbitos por doenças do aparelho respiratório no Brasil em 2024, o equivalente a 91 óbitos a cada 100 mil habitantes.

A distribuição desse total revela um equilíbrio entre os sexos: os homens registraram 97.516 óbitos (50,2%) e as mulheres 96.531 (49,7%), representando uma diferença de 0,5 ponto percentual.

O gráfico revela que a mortalidade é diretamente proporcional ao avanço da idade, demonstrando uma progressão que vai da vulnerabilidade na infância ao pico de letalidade na velhice.

A faixa etária de 65 anos ou mais concentra o maior volume de óbitos em razão do declínio natural do sistema imune, o acúmulo de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) e a evolução de doenças respiratórias crônicas graves como a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), resultante da combinação de múltiplos fatores que envolvem tabagismo e exposição à poluição.

Antes de chegar ao topo da pirâmide, os dados mostram uma transição crítica entre 55 e 64 anos. É nessa faixa que o volume de mortes começa a acelerar muito mais em comparação aos grupos mais jovens, sinalizando uma possível resposta aos danos acumulados à saúde respiratória.

Menores de 14 anos registram mais óbitos por doenças respiratórias que jovens e adultos jovens somados

As infecções respiratórias agudas de vias aéreas são responsáveis, na pediatria, por um grande número de atendimentos, visitas a serviços de emergência e hospitalizações, segundo informações da Biblioteca do Portal de Boas Práticas da Fiocruz.

A base do gráfico acima aponta para essa fragilidade dos primeiros anos de vida. 

  • A faixa de 0 a 14 anos (3.582), mais suscetível a complicações por infecções agudas, registra mais óbitos por doenças do aparelho respiratório do que os grupos de 15 a 24 anos (1.224) e 25 a 34 anos (2.261) individualmente. 
  • Estes dois últimos somados (3.485) se aproximam com diferença de apenas 97 óbitos do total de óbitos dos 0 a 14 anos.

Fatores ambientais e hospitalizações: o impacto da poluição na saúde pulmonar

Para compreender o perfil das vítimas das doenças respiratórias no Brasil é necessário olhar também para os fatores ambientais que funcionam como gatilhos para essas patologias. 

A poluição do ar traz impactos à saúde de curto ou longo prazo e é um dos fatores de risco para o agravamento da saúde respiratória. Enquanto a poluição urbana é contínua e gerada pelo tráfego de veículos e indústrias, o impacto na zona rural é sazonal, provocado pelo clima, poeira de estradas, incêndios florestais, queimadas para manejo do solo e pela fumaça das casas de farinha, comuns no Nordeste e no Norte, e dos fogões a lenha no ambiente doméstico.

Em 2024, os longos períodos de seca e os incêndios florestais intensificaram a dispersão de fumaça por grandes áreas do país, levando diversos municípios a ultrapassar o limite diário de material particulado fino (MP2,5) recomendado pela OMS, conforme divulgou o Ministério da Saúde

Dados do SIH-DataSUS divulgados pelo Observatório de Saúde Pública, da Umane, revelam que em 2024 o Brasil registrou 159.932 internações por doenças pulmonares e 52.027 por asma. 

As cinco capitais com maior taxa de internação por doenças pulmonares foram Porto Alegre (203,8), Brasília (130,9), Fortaleza (97,5), Belo Horizonte (92,9) e Aracaju (86,0)

Porto Alegre (66,8), Brasília (48,9), Belo Horizonte (34,7) e Aracaju (37,5) também fazem parte do ranking das cinco capitais com maior taxa de internação por asma, acrescido de Recife (60,1).

Os índices refletem o impacto da poluição gerada por veículos, indústria e fatores climáticos regionais. 

Porto Alegre, Brasília e Belo Horizonte sofreram com o frio ou a seca extrema e o fenômeno da inversão térmica no inverno, que retém a fumaça dos escapamentos próxima ao solo. 

Fortaleza, Aracaju e Recife, onde o inverno se dá no período das chuvas (começa em fevereiro no Ceará e se estende até agosto em Pernambuco e Sergipe), registraram picos de poluição durante suas estações chuvosas, quando o céu fica nublado por dias seguidos, o vento diminui, o trânsito piora e umidade do ar aumenta, criando o cenário propício para circulação de vírus respiratórios.

Em ambos os diagnósticos, doenças pulmonares e asma, os grupos mais afetados foram novamente os mais vulneráveis: as crianças de 0 a 14 anos e os idosos de 65 anos ou mais.

Sazonalidade climática: taxa de óbitos por doenças pulmonares em julho de 2024 cresceu 50% em relação a de janeiro, com explosão de internações por asma infantil

No inverno brasileiro, a poluição urbana se intensifica com a inversão térmica: o ar frio e seco, por ser mais denso, permanece retido próximo à superfície, bloqueando a dispersão dos gases poluentes emitidos pelos veículos e pelas indústrias. Como consequência, os compostos tóxicos concentram-se na faixa respiratória da atmosfera, elevando aos casos de doenças respiratórias. 

Além disso, as variações climáticas sazonais impactam o sistema respiratório de formas distintas em cada região:

Durante o inverno no Sul e no Sudeste, com frio extremo, redução da umidade e  inversão térmica, as defesas das vias aéreas ficam comprometidas e aumentam a sobrevida dos vírus, facilitando a transmissão de infecções respiratórias.

No Centro-Oeste, embora o inverno seja menos rigoroso, a seca é extrema. A poeira e a fuligem das queimadas comuns nesta época inflamam os pulmões e disparam crises graves de asma.

O inverno no Norte e no Nordeste ocorre no início do ano, marcado não pelo frio, mas pela temporada de chuvas intensas que elevam a umidade e provocam a proliferação de mofo e ácaros, gerando crises alérgicas.

Os dados do DataSUS-SIM de 2024 mostram que no mês de julho, auge do inverno no Brasil, especialmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, o número de óbitos por doenças do aparelho respiratório foi maior do que em janeiro em todas as faixas etárias, para homens e mulheres, com mortalidade maior entre os idosos em ambos os meses. A taxa de óbitos registrada em julho (9,0) cresceu 50% em relação à taxa de janeiro (6,0) daquele ano. 

Enquanto os idosos faleceram mais por doenças pulmonares, as crianças são as mais afetadas pela asma. O volume de internações com esse diagnóstico em 2024 também foi maior no período de inverno (julho) do que em janeiro para todas as faixas etárias e sexos, com um número expressivamente maior entre as crianças de 0 a 14 anos.

Vacinação é a principal defesa 

Além dos cuidados já estabelecidos para evitar as doenças respiratórias em qualquer idade, como manter ambientes ventilados, usar máscara, hidratar-se com frequência e evitar o tabagismo, a vacinação continua sendo a principal medida de prevenção. 

A vacina da gripe é distribuída gratuitamente pelo SUS. Ela protege contra os principais tipos de vírus influenza em circulação e é fundamental para reduzir casos graves, internações e óbitos, especialmente entre crianças, gestantes e idosos que compõem os grupos de maior risco.

Por isso a mobilização em torno das campanhas de imunização é o caminho mais eficaz para proteger a população. Ela transforma a prevenção na principal barreira de defesa contra os impactos do clima frio e da poluição urbana, fatores típicos do inverno que aceleram a disseminação das doenças respiratórias.

Leia mais no blog da Umane: Poluição e doenças respiratórias: impacto na saúde brasileira