Maio Amarelo: mortes no trânsito voltam a crescer no Brasil e pressionam o SUS

O Brasil enfrenta uma crise silenciosa nas ruas e estradas: em 2024, 38.253 pessoas perderam a vida em acidentes de transportes, sendo a maioria acidentes de trânsito, segundo dados do Datasus – SIM, disponíveis no Observatório de Saúde Pública da Umane. Em meio a ações de Maio Amarelo, o número também mostra uma tendência preocupante, já que, em 2019, foram 32.879 mortes, o que representa um aumento de cerca de 16% em cinco anos. 

Entre 2010 e 2024, mais de 565 mil pessoas morreram em acidentes de transporte no Brasil, segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) com base em dados do Ministério da Saúde. Por trás desses dados estão famílias impactadas e um custo social elevado, com pressão constante sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), responsável por atender milhares de vítimas todos os anos. 

É nesse contexto que o Maio Amarelo ganha ainda mais relevância. Criado em 2014 pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), o movimento surge como uma mobilização brasileira alinhada a um esforço global pela redução de mortes no trânsito. A iniciativa foi inspirada na Década de Ação pela Segurança no Trânsito, lançada pela ONU em 11 de maio de 2011. 

Após redução na década passada, mortes em acidentes no trânsito voltam a crescer 

A série histórica de mortes por acidentes de transportes (considerando a maioria acidentes de trânsito), iniciada nos anos 2000, revela a persistência do problema ao longo do tempo. Os números crescem de forma consistente até atingir um pico em 2012, com 46.051 óbitos. A partir daí, há uma queda gradual, que não se sustenta nos anos mais recentes: os dados voltam a subir, mantendo o país em um patamar elevado de mortalidade. 

A análise da taxa de mortalidade por acidentes de transporte reforça essa tendência recente de agravamento. Após atingir seu ponto mais baixo em 2019, com 15,8 mortes por 100 mil habitantes, o indicador voltou a crescer nos anos seguintes, chegando a 18 em 2024. Esses dados podem ser consultados nos diagnósticos por estados disponíveis no Observatório de Saúde Pública. 

Desigualdades de gênero e raça marcam as mortes no trânsito no Brasil 

Os dados do OSP também revelam desigualdades importantes no perfil das vítimas. Em 2024, os homens concentraram 82,5% das mortes por acidentes de transporte, enquanto as mulheres representaram 17,5%, segundo o Datasus (SIM). No recorte por cor da pele, pessoas pardas aparecem como maioria entre as vítimas, com 21.296 mortes em 2024, seguidas por pessoas brancas (14.113) e pretas (2.187).

A distribuição das mortes por faixa etária mostra que o problema se concentra, sobretudo, na população economicamente ativa. Mais da metade das mortes registradas em 2024 ocorreu entre pessoas de 25 a 54 anos, indicando que o impacto dos acidentes vai além da perda de vidas e afeta diretamente famílias, renda e produtividade.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica os acidentes de trânsito como uma das principais causas de morte no mundo, especialmente entre jovens, e destaca que grande parte dessas mortes é evitável. 

Internações de motociclistas crescem mais de 260% e ampliam pressão sobre o SUS 

Em 2026, o tema do Maio Amarelo propõe uma reflexão: no trânsito, enxergar o outro é salvar vidas, uma mensagem que dialoga com o cenário crítico brasileiro, especialmente pela alta vulnerabilidade dos motociclistas. 

De acordo com o Infosiga, sistema do Detran-SP, motociclistas responderam por 45% das mortes no trânsito no estado de São Paulo no primeiro trimestre de 2026. Esse padrão também se reflete na rede de saúde, ampliando os impactos dos acidentes para além dos óbitos.

Dados do Datasus, a partir do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), mostram que as internações de motociclistas traumatizados em acidentes de trânsito saltaram de 41.248 em 2008 para 150.793 em 2024, um aumento de 265,6% no período. Ao todo, a série acumula mais de 1,7 milhão de internações, ressaltando o impacto crescente desses acidentes na rede pública de saúde. Somente em 2024, motociclistas responderam por cerca de dois terços das internações por acidentes de trânsito registradas no SUS.

As mortes envolvendo motociclistas também atingiram o maior patamar desde 2010 em 2024, com 15.500 óbitos registrados no país, segundo dados do Datasus.

O impacto desses acidentes também se reflete na rede pública de saúde. Dados apresentados pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), com base em informações do Ministério da Saúde, mostram que 42% das mortes por acidentes de trânsito registradas entre 2010 e 2024 ocorreram em hospitais e outros estabelecimentos de saúde, evidenciando a pressão contínua sobre os serviços de urgência e atendimento hospitalar.

Diante desse cenário, iniciativas como o Maio Amarelo ganham ainda mais importância ao promover a conscientização e incentivar mudanças de comportamento no trânsito. Já o acesso a dados qualificados, como os disponibilizados pelo Observatório de Saúde Pública, também é essencial para orientar políticas públicas e identificar grupos mais vulneráveis. Reduzir mortes e lesões no trânsito depende da combinação entre informação, responsabilidade coletiva e ações contínuas.