Março Lilás: câncer do colo do útero ainda cresce no Brasil, mesmo sendo prevenível

O Brasil vive uma contradição quando o assunto é câncer do colo do útero. Mesmo sendo um tipo de câncer em grande parte evitável e contando com estratégias de cuidado ofertadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a doença apresenta aumento de casos e da mortalidade. É nesse cenário que o Março Lilás, campanha promovida pelo Ministério da Saúde, reforça a importância da conscientização e do acesso a exames preventivos.

Esse avanço aparece nas projeções mais atuais do Instituto Nacional de Câncer (Inca). O país deve registrar cerca de 19,3 mil novos casos anuais no triênio 2026–2028. No levantamento anterior, a previsão era de pouco mais de 17 mil casos por ano, o que representa um aumento aproximado de 14%.O dado é ainda mais relevante porque o câncer do colo do útero permanece como o terceiro tipo de tumor maligno mais incidente entre mulheres cisgênero e pessoas com colo do útero no Brasil, desconsiderados os tumores de pele não melanoma. Trata-se, portanto, de um problema persistente de saúde pública, que continua impactando milhares de pessoas todos os anos.

O que é o câncer do colo do útero e sua principal causa

O câncer do colo do útero é um tumor que se desenvolve na parte inferior do útero, região que conecta o órgão à vagina. Em geral, ele se forma lentamente, a partir de alterações nas células que podem levar anos até se tornarem um câncer invasivo, o que torna o rastreamento uma estratégia fundamental de saúde pública. A doença está diretamente relacionada à infecção pelo papilomavírus humano (HPV), um vírus de transmissão sexual bastante comum. Estudos indicam que o HPV está presente em praticamente 100% dos casos de câncer do colo do útero.

Justamente por essa associação direta, o Brasil dispõe de vacina contra o HPV ofertada gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A imunização está disponível para meninas e meninos de 9 a 14 anos (dose única). A vacina também é indicada para pessoas de 9 a 45 anos com imunossupressão (HIV, câncer, transplantados), vítimas de abuso sexual e pessoas com papilomatose respiratória, com esquema de três doses. Trata-se de uma das principais estratégias de prevenção do câncer do colo do útero, integrada às políticas públicas de saúde no país.

Mortalidade por câncer do colo do útero no Brasil: o que mostram os dados

Os dados de mortalidade ajudam a dimensionar ainda mais esse cenário. Informações do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do DATASUS, disponíveis no Observatório de Saúde Pública, mostram que, em 2024, foram registrados 7.493 óbitos por câncer do colo do útero no Brasil.

Quando comparado a dez anos antes, o aumento também é significativo. Em 2014, o país havia registrado 5.448 mortes pela doença. O salto representa um crescimento de aproximadamente 37,5% no período.

As mortes são mais frequentes entre mulheres mais velhas, especialmente entre aquelas com 65 anos ou mais. No entanto, os números já apresentam crescimento expressivo a partir dos 35 anos de idade e aumentam de forma consistente nas faixas etárias seguintes, com maior concentração entre mulheres a partir dos 45 anos.

Queda nos exames de Papanicolau e colposcopia preocupa na prevenção do câncer do colo do útero

O aumento de casos e de mortalidade também ocorre em um contexto em que uma parcela relevante das mulheres ainda não realiza exames preventivos. Dados do Vigitel indicam que, em 2023, 21,1% das mulheres com 18 anos ou mais nas capitais brasileiras relataram nunca ter realizado o exame de Papanicolau.

Os dados do Vigitel também revelam diferenças importantes entre as capitais brasileiras na realização do exame de Papanicolau. Em algumas cidades, mais de três em cada dez mulheres de 18 anos ou mais nunca realizaram o exame. Os maiores percentuais aparecem principalmente em capitais do Nordeste e do Norte, como João Pessoa (31,8%), Macapá (30,3%), Maceió (30,3%) e Fortaleza (30%). Em contraste, capitais do Sul e do Sudeste registram proporções bem menores, como Porto Alegre (7,9%) e Florianópolis (11%).Outro exame importante para o diagnóstico da doença é a colposcopia. Dados do Sistema de Informações Ambulatoriais (SIA) do SUS mostram que o número de colposcopias realizadas em mulheres na rede pública e conveniada caiu de 714.358 em 2019 para 264.138 em 2021, no contexto da pandemia de covid-19. Houve recuperação parcial nos anos seguintes, com 310.988 exames em 2024, mas o volume ainda permanece inferior ao observado antes de 2020.

Novo teste de DNA do HPV muda as diretrizes de rastreamento do câncer do colo do útero no Brasil

Nos últimos anos, o Brasil também passou por mudanças nas estratégias de prevenção e rastreamento do câncer do colo do útero. O Ministério da Saúde atualizou as diretrizes nacionais e passou a incorporar ao SUS o teste molecular para detecção do DNA do HPV, que gradualmente substituirá o exame de Papanicolau como método principal de rastreamento. A nova tecnologia permite identificar a presença dos tipos de HPV de alto risco, possibilitando a detecção precoce de lesões que podem evoluir para câncer.

Nesse contexto, campanhas como o Março Lilás desempenham um papel importante ao ampliar a informação sobre prevenção, vacinação e exames de rastreamento. A conscientização ajuda a estimular a procura  por unidades de saúde e a realização de exames disponíveis na rede pública. Ao mesmo tempo, fortalecer o SUS, especialmente na atenção primária e no acesso ao diagnóstico, é fundamental para garantir que essas estratégias cheguem de forma equitativa a todas as regiões do país.