Calor extremo, saúde e desigualdades: o que os dados mostram sobre impacto climático

As notícias relacionadas ao aquecimento do planeta não são animadoras. Mesmo em cenários em que os países cumpram suas metas de redução de emissões, estimativas indicam que a temperatura média global pode atingir até 2,7°C de aumento até o fim do século. Esse aquecimento está associado ao aumento da frequência e da intensidade de ondas de calor extremo e outros eventos climáticos extremos, fenômenos que já produzem impactos diretos sobre a saúde da população, especialmente entre grupos mais vulneráveis, como bebês, idosos e pessoas com doenças crônicas, entre elas as cardiovasculares e respiratórias.

Quando o corpo humano é exposto ao calor, uma série de mecanismos fisiológicos é ativada para manter a temperatura interna estável. A dissipação do calor ocorre principalmente por meio do suor e da dilatação dos vasos sanguíneos. Em situações de calor extremo, esses mecanismos podem se tornar insuficientes. O organismo passa então a enfrentar um processo de superaquecimento, que aumenta a sobrecarga sobre o sistema cardiovascular, elevando a frequência cardíaca e a pressão arterial.

Um relatório divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) mostra que a mortalidade relacionada ao calor entre pessoas com mais de 65 anos aumentou cerca de 85% desde a década de 1990. As projeções indicam que, se o ritmo atual de aquecimento for mantido, o impacto tende a se intensificar nas próximas décadas.

Na América Latina, estudos recentes reforçam esse cenário. Uma análise publicada na revista Environment International, que avaliou dados de mortalidade em 326 cidades da região, aponta que o número de mortes associadas ao calor pode dobrar até 2050. Embora a redução das mortes relacionadas ao frio seja esperada, essa diminuição não deve ser suficiente para compensar o crescimento das mortes associadas ao calor.

Indicadores de doenças cardiovasculares e respiratórias no Brasil

No Brasil, os indicadores de saúde ajudam a dimensionar quais condições já concentram maior impacto sobre a população. Dados do Vigitel, disponíveis no Observatório da Saúde Pública da Umane, mostram que a hipertensão arterial, um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares, atingia 28,1% das pessoas que vivem nas capitais brasileiras em 2023, com prevalência mais elevada entre pessoas com 65 anos ou mais (64,6%). A série histórica também mostra tendência de crescimento da prevalência de hipertensão nas capitais ao longo dos anos.

Entre os indicadores analisados pelo Observatório estão também as internações por doenças pulmonares e asma, que ajudam a compor o panorama das condições que demandam acompanhamento contínuo no sistema de saúde. Em 2024, foram registradas mais de 159 mil internações por doenças pulmonares e 52 mil por asma em todos os municípios do Brasil. Esses dados são do SIH-DATASUS disponíveis no Observatório da Saúde Pública. Nas duas condições, os grupos mais afetados foram crianças de zero a 4, e 5 a 14 anos, bem como idosos acima de 65 anos.

Embora os dados nacionais não permitam estabelecer uma relação direta entre episódios específicos de calor extremo e o aumento das internações por doenças pulmonares e asma, a literatura científica aponta que pessoas com doenças respiratórias e cardiovasculares estão entre as mais vulneráveis aos efeitos das altas temperaturas. O estresse térmico pode agravar quadros clínicos preexistentes, tornando esses grupos frequentemente os primeiros a demandar atendimento em períodos de ondas de calor.

O impacto das mudanças climáticas na Amazônia Legal 

Embora as ondas de calor sejam frequentemente associadas aos grandes centros urbanos, onde o efeito de “ilha de calor” intensifica as altas temperaturas, os impactos das mudanças climáticas não se manifestam da mesma forma em todo o país. Dados do inquérito Mais Dados Mais Saúde – Clima e Saúde na Amazônia Legal, disponíveis no Observatório da Saúde Pública da Umane, mostram que 74,8% dos moradores da região já foram diretamente afetados pelas mudanças do clima. Entre povos e comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas e ribeirinhos, essa percepção é ainda mais elevada.

O levantamento também mostra que 64,7% da população relatou ter vivenciado ondas de calor extremo nos últimos dois anos, e 82,4% responderam acreditar que o aquecimento global está influenciando o aumento da temperatura média, indicando que a exposição a eventos climáticos extremos ocorre em diferentes contextos territoriais. 

Calor extremo e altas temperaturas: saúde, clima e desigualdades no território 

A análise conjunta desses indicadores mostra que os efeitos das mudanças climáticas sobre a saúde se somam a condições já presentes no perfil de adoecimento da população e tendem a afetar de maneira mais intensa grupos e territórios que enfrentam maiores vulnerabilidades sociais e de acesso ao cuidado. 

Ao reunir e disponibilizar dados de diferentes fontes, o OSP contribui para ampliar essa leitura do cenário, apoiando gestores, pesquisadores e jornalistas na identificação de tendências e na construção de respostas mais adequadas às diferentes realidades do país.

No blog da Umane você encontra mais informações sobre o inquérito Mais Dados Mais Saúde – Clima e Saúde na Amazônia Legal e seus principais resultados.