Setembro Amarelo: dados de suicídio no Brasil de 2000 a 2024 revelam desafios para a prevenção

Peter Ilicciev/Fiocruz

O suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial que afeta pessoas de diferentes contextos de vulnerabilidade, idades, gêneros e classes sociais, mas pode ser prevenido com redes de suporte adequadas. Abordar o assunto de forma responsável é o passo fundamental impulsionado pelo Setembro Amarelo desde 2015, quando a campanha foi criada no país.

Embora o tema seja delicado, falar sobre suicídio no Brasil deixou de ser um tabu cercado pelo silêncio. Com base em diretrizes da OMS, a imprensa passou a cobrir o assunto priorizando a prevenção e os canais de apoio. Ao mesmo tempo, o Setembro Amarelo levou o debate para escolas, empresas e mídias, e as redes sociais ajudaram o público jovem a falar sobre ansiedade e depressão, reduzindo o estigma em torno da saúde mental. 

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 727 mil pessoas tiram a própria vida por ano no mundo. No Brasil, dados do DATASUS divulgados no Observatório de Saúde Pública, da Umane, registraram 151.561 mortes por suicídio somente entre 2014 e 2024. elevando a taxa nacional de óbitos por 100 mil habitantes de 5,3 para 7,9 em uma década.

Alta de suicídio é crescente e maior que o aumento populacional em 24 anos

A análise da série histórica de 2000 a 2024 no Brasil mostra que o volume de suicídios cresceu em ritmo quase 7 vezes maior do que o crescimento populacional

O total de óbitos manteve uma tendência de crescimento contínuo saindo de 6.780 óbitos por suicídio em 2000 (taxa de 3,9 por 100 mil habitantes) para 16.751 óbitos em 2024 (taxa de 7,9 por 100 mil habitantes).

Suicídio na faixa etária de 65 anos ou mais é 4,7 vezes maior entre homens 

Desde 2000 os homens lideram as estatísticas de suicídio no Brasil, conforme o gráfico acima. Em 2024, o número de mortes por suicídio entre os homens (13.047) foi 3,5 vezes maior do que entre as mulheres (3.700).

Os fatores de risco são complexos e devem ser identificados caso a caso. 

A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) destaca que o suicídio tende a ser maior entre os homens devido à letalidade dos métodos utilizados e relaciona os principais fatores à solidão e ao isolamento. 

Segundo a Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, do Ministério da Saúde, o risco maior na população masculina pode estar relacionado a fatores de trabalho e renda, como desemprego, restrições financeiras e aposentadoria. No caso dos idosos, esses cenários provocam perda de poder aquisitivo, alteração nos papéis sociais e familiares, além do enfraquecimento das relações interpessoais e da autoestima. Barreiras culturais, como a ideia de que pedir ajuda é sinal de fraqueza, também adiam a busca por cuidado médico e psicológico.

  • Embora os casos masculinos superem os femininos em todas as faixas etárias, a discrepância atinge o auge na população idosa. Na faixa de 65 anos ou mais, o número de mortes por suicidio entre os homens (1.642) foi 4,7 vezes maior que entre as mulheres (352). 
  • Faixas etárias de 25 a 34 anos e 35 a 44 anos de idade são as mais atingidas. A ABP aponta como fatores de risco mais frequentes, independentemente da idade, predisposição genética, traumas na infância, transtornos mentais não tratados, como depressão, bipolaridade e abuso de substâncias, isolamento social, desemprego, pressões financeiras e perdas recentes.
  • Enquanto entre os homens o número de casos permaneceu muito elevado até faixas etárias mais avançadas, entre as mulheres o volume caiu conforme avanço da idade. Segundo a ABP, o sexo feminino está mais associado a fatores de proteção, tem redes de apoio e laços sociais mais fortalecidos. 

Com exceção da faixa de 0 a 14 anos, o histórico abaixo revela um crescimento sustentado no número dos óbitos por suicídio em todas as idades com destaque para a aceleração do grupo de 25 a 44 anos a partir de 2016.

Rio Grande do Sul é o estado com maior taxa de morte por suicídio em 2014 e 2024

Dados do DATASUS-SIM mostram que em 2014 o estado do Rio Grande do Sul ocupava o 1º lugar na lista de morte por suicidio no Brasil, com maior taxa (10,1) de óbitos por 100 mil habitantes. Dez anos depois, em 2024, o estado permanece na 1ª posição, com taxa maior (13,8) representando crescimento de 37% da taxa em relação a 2014.

Santa Catarina (8,7), que ocupava a 2ª posição em 2014, passou para a 5ª posição no ranking de 2024 com taxa maior (12,2). Mato Grosso do Sul passou da 3ª posição (7,8) em 2014 para a 4ª posição em 2024 (12,4), também com taxa maior. 

Em 2024, estados da região Norte entraram na lista das três maiores taxas de mortalidade por suicídio. Acre (12,8) e Tocantins (12,6) figuraram na 2ª e 3ª posição, respectivamente, subindo no ranking em relação a 2014, quando Acre ocupava a 9ª (6,0) e Tocantins a 10ª posição (5,8).

Mortes por suicidio em 2014 – Taxa por 100 mil habitantes por Estado

1º Rio Grande do Sul: 10,1

2º Santa Catarina: 8,7

3º Mato Grosso do Sul: 7,8

Mortes por suicidio em 2024 –  Taxa por 100 mil habitantes por Estado

1º Rio Grande do Sul: 13,8

2º Acre: 12,8

3º Tocantins: 12,6

4º Mato Grosso do Sul: 12,4

5º Santa Catarina: 12,2

SUS treina equipes da Atenção Básica para identificar e tratar precocemente sofrimento mental

A expansão Sistema Único de Saúde (SUS) e da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) tornou o cuidado em saúde mental mais visível e acessível. 

Instituída em 2011 pelo Ministério da Saúde, a RAPS integra serviços de saúde mental do SUS que incluem Unidades Básicas de Saúde (UBS), SAMU, hospitais gerais, Unidades de Acolhimento (UA) e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), 

Desde 2023, uma parceria entre a ImpulsoGov e governos municipais capacita equipes da Atenção Primária à Saúde (APS) para realizar intervenções breves em casos leves e moderados de depressão e ansiedade. Presente em cidades como Santos (SP), São Caetano do Sul (SP) e Aracaju (SE), a estratégia prioriza o diagnóstico precoce nas UBS para evitar o agravamento dos quadros e reduzir a sobrecarga nos CAPS.

Setembro Amarelo: prevenção, acolhimento e escuta atenta

A prevenção ao suicídio envolve estratégias de saúde pública, acolhimento social e apoio psicológico para identificar e intervir precocemente em quadros de sofrimento psíquico grave.

Principais sinais de alerta, segundo o Ministério da Saúde:

  • Comportamento: falas de desesperança, isolamento social e perda de interesse por atividades habituais.
  • Fatores de risco: crises financeiras, perdas recentes, mudanças bruscas na rotina e o estigma em pedir ajuda.

Onde buscar ajuda:

  • Atendimento inicial nos CAPS e UBS; urgências nas UPAs 24h ou pelo SAMU (192).
  • Centro de Valorização da Vida (CVV): escuta gratuita, anônima e 24h pelo telefone 188, além de chat e e-mail no site cvv.org.br.

Com o tema Escutar é estar presente, a campanha do Setembro Amarelo 2026 do CVV destaca a escuta empática como uma das ferramentas mais potentes para prevenir o suicídio. Ouvir sem julgamentos quebra o isolamento que costuma acompanhar o sofrimento mental e cria uma ponte de acolhimento em momentos de crise. Essa presença humana, aliada à percepção dos sinais de alerta e ao apoio da saúde pública, fortalece a rede de proteção social e ajuda a salvar vidas.

Leia mais no blog da Umane: Setembro amarelo: evolução da ansiedade no Brasil