Tabagismo no Brasil e no mundo ainda desafia a saúde pública

A população mundial está fumando menos, mas o tabagismo ainda é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) uma das maiores ameaças à saúde pública do mundo.
Dados da OMS mostram que o total de pessoas fumantes caiu de 1,38 bilhão em 2000 para 1,2 bilhão em 2024: uma redução de 120 milhões de pessoas desde 2010. Apesar do avanço, o tabagismo continua sendo a principal causa de morte evitável no planeta e uma das maiores ameaças à saúde pública global, vitimando mais de 8 milhões de pessoas por ano: 7 milhões pelo uso direto do tabaco e 1,2 milhão de fumantes passivos, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).
Quatro décadas depois da criação do Dia Mundial sem Tabaco pela OMS, celebrado em 31/05, as estatísticas mostram avanços, mas também desafios persistentes no comportamento de risco.
Após anos de queda histórica, número de pessoas fumantes volta a crescer no Brasil
Até 2023, o Brasil acompanhou a diminuição de fumantes divulgada pela OMS. Dados do Observatório de Saúde Pública, de Umane, com base nas informações do sistema de vigilância Vigitel, mostram que o número de pessoas fumantes com 18 ou mais anos de idade nas capitais brasileiras caiu de 15,7% em 2006 para 9,3% em 2023, uma redução substancial de 40,8% em menos de vinte anos.

Dentre os 9,3% de fumantes, a maior prevalência está entre adultos de 25 a 44 anos.

Considerando o total de pessoas fumantes de 18 ou mais anos de idade, a prevalência é maior entre os homens (11,8%) do que entre as mulheres (7,3%).
Dados recentes do Ministério da Saúde indicam que, após quase duas décadas de queda, a proporção de fumantes voltou a crescer: o índice subiu de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024, um aumento de cerca de 25% em apenas um ano. Especialistas apontam que a expansão de novos produtos de nicotina, como os dispositivos eletrônicos para fumar (vapes), pode estar entre os fatores associados a essa mudança, especialmente diante do aumento do uso entre jovens.
A cada 100 mil habitantes, 14,8 vão a óbito por câncer de traqueia, brônquios e pulmão
Além de ser um dos principais fatores de risco modificáveis para o desenvolvimento de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), o hábito de fumar é um dos fatores associados ao câncer de traqueia, brônquios e pulmão.
Dados do DATASUS (2024) mostram que o total de óbitos por câncer de traqueia, brônquios e pulmão dobrou no Brasil em quatro anos: foram 28.620 óbitos em 2020 e 32.557 em 2024.
O crescimento é influenciado pelo envelhecimento da população e pelo tempo de latência do tabagismo, período em que a doença está se desenvolvendo “em silêncio” no organismo antes de manifestar qualquer sintoma.
Embora os homens ainda liderem os números absolutos, a mortalidade feminina apresenta um ritmo de crescimento acentuado.

A taxa de prevalência de óbitos por câncer de traqueia, brônquios e pulmão em 2024 foi de 15,3 por 100 mil habitantes, maior entre os homens (52,8%) que nas mulheres (47,2%), com concentração massiva na população idosa.


A faixa de 65 anos ou mais concentra a maioria das mortes registradas no Brasil. Somando homens (12.384) e mulheres (10.601) nessa faixa etária, o total é de 22.985 óbitos. E, se somarmos a essa faixa os óbitos das pessoas de 55 a 64 anos (6.918), o resultado se aproxima da totalidade das mortes por esse tipo de câncer no país (32.557).
Considerando a natureza crônica do tabagismo e seu impacto de longo prazo na saúde, se essa população de 25 a 44 anos continuar fumando pelos próximos 30 anos, ela pode fazer parte do topo da pirâmide de mortalidade por câncer de traqueia, brônquios e pulmão em 2050 ou 2060.
De leis rígidas ao tratamento gratuito pelo SUS: Como o Brasil combate o tabagismo
O sucesso da redução do tabagismo no Brasil entre 2006 e 2023 comprova a eficácia das políticas públicas adotadas no país.
O tratamento do tabagismo é oferecido de forma 100% gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2001, abrangendo os três níveis de atenção: básica, média e alta complexidade. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), as Unidades Básicas de Saúde (UBS) funcionam como a principal via de acesso a esse serviço: em 2019, as UBSs concentraram 87% dos atendimentos, seguidas pelos estabelecimentos da Atenção Especializada, com 10%, e pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), com 3%, de acordo com o Programa Nacional de Controle do Tabagismo (PNCT).
A Lei Antifumo, regulamentada em 2014 (Lei Federal nº 12.546/2011), o fim do patrocínio e comerciais de cigarro em 2000 e a política de preços e impostos elevados para cigarros também foram medidas fundamentais para desestimular o consumo de tabaco.
No contexto de saúde pública municipal, as ações locais do PNCT são a ponta de execução das diretrizes do Ministério da Saúde e do INCA e acontecem diretamente nos territórios.
Novas políticas públicas de controle ao tabagismo em SP
O Projeto “Municípios Parceiros no Controle do Tabagismo” realizado em 2025 pelo Instituto Oncoguia em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP), e com o apoio da Umane, é um exemplo de mobilização com resultados práticos.
O objetivo foi enfrentar o tabagismo em 10 municípios estratégicos de São Paulo, capacitando o legislativo e profissionais de saúde para a criação de leis e políticas públicas municipais de combate ao tabagismo e aos cigarros eletrônicos (vapes).
Até março de 2026, os desdobramentos do projeto já resultaram em sete leis e uma emenda de lei aprovadas, nove projetos de lei apresentados e três requerimentos formalizados, relacionados ao controle do tabagismo e ao uso de dispositivos eletrônicos.
Como exemplo, em Santa Salete, Itapeva e Mococa foi instituída a Semana Municipal de Conscientização sobre os riscos dos cigarros eletrônicos com foco nos jovens, e em Santos a Campanha Municipal de Conscientização sobre os Malefícios do Cigarro Eletrônico.
Em âmbito estadual, foi proposto o Projeto de Lei nº 1395/2025 que prevê a criação da Política Estadual de Prevenção, Tratamento e Enfrentamento ao uso de dispositivos eletrônicos para fumar.
São muitas ações em curso para o combate do tabagismo no país. O desafio agora é voltar a frear essa nova escalada de fumantes e o crescente uso dos vapes para proteger a geração atual e também as futuras.
Leia mais no blog de Umane: Hábitos saudáveis no Brasil: dados sobre tabagismo, atividade física, alimentação e álcool
