Mortalidade precoce: avanço das mortes por AVC em jovens modifica o perfil da doença no país
O Acidente Vascular Cerebral (AVC) que sempre foi visto como uma doença da terceira idade tem afetado outras faixas etárias da população mundial, com destaque preocupante entre a população mais jovem. A Organização Mundial de AVC (World Stroke Organization – WSO) prevê que 1 em cada 4 adultos com mais de 25 anos em todo o mundo sofrerá um AVC ao longo de sua vida.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o AVC afeta 15 milhões de pessoas por ano no mundo. No Brasil, onde uma pessoa morre em decorrência de AVC isquêmico ou hemorrágico a cada seis minutos, o número de internações pela condição cresceu 59% em pessoas com até 39 anos só na última década, de acordo com o Ministério da Saúde.
As causas que aumentam a probabilidade de ocorrência de um AVC em qualquer idade envolvem uma combinação de fatores de risco relacionados às Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) e estilo de vida.
Hipertensão e tabagismo são os fatores de risco modificáveis mais significativos que poderiam evitar o AVC em jovens e outras faixas etárias
O AVC se dá quando vasos que levam sangue ao cérebro entopem ou se rompem, provocando a paralisia da área cerebral que ficou sem circulação sanguínea.
Os principais fatores de risco modificáveis que resultam no AVC são hipertensão arterial, tabagismo, diabetes, colesterol elevado, obesidade, sedentarismo, uso de álcool e outras drogas, entre outros. Segundo a OMS, hipertensão arterial e tabagismo têm correlação direta com óbitos por AVC:
- Para cada 10 pessoas que morrem de AVC, 4 poderiam ter sido salvas se a sua pressão arterial tivesse sido controlada.
- Dois quintos das mortes por AVC entre as pessoas com menos de 65 anos está relacionada ao tabagismo.
Dados do Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) de 2006 a 2023, disponíveis no Observatório da Saúde Pública da Umane, confirmam o padrão histórico de prevalência de hipertensão na população de 64 anos ou mais das capitais brasileiras. O avanço da doença nas faixas etárias mais jovens revela que o risco de AVC está sendo empurrado para estágios cada vez mais precoces da vida:
Entre os 45 e 54 anos, o aumento foi de 6,50% em 2006 (32,3%) relativo a 2023 (34,4%).
Os casos de pessoas que relatam hipertensão entre 18 a 24 anos aumentaram 18,37% comparando 2006 (4,9%) a 2023 (5,8%).
Entre jovens adultos de 25 a 34 anos, o aumento foi de 15,79% de 2006 (9,5%) em relação a 2023 (11,0%).
No grupo de adultos da faixa entre 35 a 44 anos, o aumento relativo foi de 5,98% comparando 2006 (18,4%) e 2023 (19,5%).

Em relação ao tabagismo, os dados do Vigitel 2023 revelam um cenário preocupante nas capitais brasileiras, especialmente com a ascensão dos cigarros eletrônicos (vapes) que impulsionou a dependência de derivados do tabaco no Brasil. Apesar das recorrentes campanhas de conscientização antitabagismo, ainda há 1,156.927 de fumantes ativos entre os grupos 18 e 34 anos, pessoas que sequer atingiram a metade da vida adulta.
Esse panorama acende um alerta: além de antecipar o risco de AVC precoce, essa base mais jovem de fumantes projeta um aumento de AVC no futuro.

Dados revelam que óbitos por AVC isquêmico triplicam na faixa dos 35 aos 44 anos
Dados mais recentes do DataSUS – SIM levantados em todos os municípios do Brasil, divulgados pelo Observatório de Saúde Pública, da Umane, mostram os óbitos por AVC isquêmico em 2024.
Analisando por idade, somando homens e mulheres, chama atenção o salto a cada mudança de faixa etária na transição para a maturidade:
- O número de óbitos por AVC isquêmico aumenta 221% da faixa dos 15 a 24 anos (1.338 óbitos) para a faixa de 25 a 34 anos (4.298 óbitos).
- O salto mais agressivo ocorre no grupo de 35 a 44 anos (13.084 óbitos), cujo patamar de mortalidade supera o triplo do registrado na faixa de idade anterior, de 25 a 34 anos (4.298 óbitos),
- Na transição da faixa de 45 a 54 anos (29.800 óbitos) para o grupo de 55 a 64 anos (59.703 óbitos), o volume de óbitos registra um aumento de 100%. A entrada na casa dos 50 anos marca um período em que o organismo começa a cobrar o preço pelos fatores de risco acumulados.

Esses indicadores sinalizam uma transição epidemiológica crítica. Conter o avanço do AVC entre jovens e jovens adultos requer uma mudança de paradigma e o reforço no enfrentamento estratégico dos fatores de risco modificáveis na juventude. Para prevenir o AVC, o foco principal deve ser a mudança de hábitos diários. Diretrizes do Ministério da Saúde e de sociedades médicas de neurologia e cardiologia recomendam praticar atividade física regularmente, manter uma alimentação equilibrada e evitar ou abandonar o tabagismo e o consumo abusivo de álcool, que agridem diretamente o sistema vascular. Além disso, o controle periódico da pressão arterial e do colesterol, somado ao gerenciamento do estresse, são fundamentais para proteger o coração e preservar a integridade cerebral, principalmente de uma geração que ainda não chegou na vida adulta.
Leia mais no blog da Umane: Hipertensão avança no Brasil e reforça importância da prevenção e do diagnóstico precoce
